AS DIFERENTES INFÂNCIAS

Texto por Isabella Oliveira



Hoje, a caminho do trabalho, me peguei pensando na tamanha desigualdade em nosso país - fazia 10°C, vi pessoas super agasalhadas com moletons e jaquetas de marca, enquanto outras vagavam pelas ruas com os pés descalços e vivendo em plena miséria, sem ao menos uma coberta para aquecê-los.

Me peguei pensando nas crianças que vivem essa realidade. Decidi pesquisar e descobri que 6 a cada 10 crianças e adolescentes em nosso país vivem em extrema pobreza. Número alto que me assustou! Como podemos deixar de olhar para isso? Como podemos pensar apenas em uma pequena porcentagem das crianças? Conclui que quando falamos de infância e educação na infância, temos que primeiro pensar: De qual infância estamos nos referindo?

Há algumas semanas atrás estava preparando uma oficina de pipa que seria oferecida para as crianças que moram no bairro de Santana, Zona Norte de São Paulo. Pedi ajuda para um amigo que mora em Osasco, no bairro Conceição. Conversando com ele pude notar que uma oficina de pipa para as crianças do seu bairro teria um impacto completamente diferente, já que soltar pipa está no cotidiano delas. Fiquei pensando sobre isso. Chegado o dia da oficina, pudemos notar que das 15 crianças que estavam participando, apenas 1 já tinha soltado pipa e nenhuma delas sabia como fazer. Mais uma vez volto a perguntar - quando planejamos uma oficina, de qual infância estamos falando?

A diferença entre as infâncias de classes diferentes é clara - as cobranças são outras, os medos são outros, as brincadeiras são outras e a pergunta que fica na minha cabeça é: Por que? Lembro de uma palestra que participei com a psicóloga Ilana Katz onde ela dizia que hoje temos um emparedamento de infâncias em nome da segurança e essa tal “segurança” leva as nossas crianças a ficarem dentro das telas. E as crianças que não tem condição de ter telas? Ficam emparedadas? Se ficam, onde? Ilana finalizou nos dizendo: A morte dos pais da criança da rocinha, não pode justificar a segurança da criança de Ipanema. Frase chocante, porém real.

Precisamos rever nosso conceito de segurança e mudar olhar - principalmente - para essas crianças de classe social mais baixas como crianças, apenas crianças, com as mesmas necessidades de qualquer outra: de amor, afeto, carinho, compaixão e não somente para as necessidades materiais.

Vamos expandir o pensamento e olhar para a nossa realidade de maneira ampla - E agora, eu que te pergunto: De qual infância você está falando?

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